Mia Couto: Terra Sonâmbula
- 24 de jul. de 2016
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Terra Sonâmbula é o premiado Romance do escritor Moçambicano Mia Couto, escrito em 1992, publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras. O livro aborda questões referentes a guerra civil vivida em solo africano e a perda de identidade dos personagens. A estória é narrada através do olhar do velho Tuahir e das leituras de um caderno achado por Muindinga.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula, constrói um mundo de lembranças, sofrimentos e indagações que, à primeira vista, cerceiam a sensação de felicidade do personagem Muidinga, observa-se também a utilização de uma linguagem que beira o fantástico, o mágico, e com isso a mimese poética.
Muidinga por ser ainda jovem, sem grandes experiências, enxerga o mundo através das narrativas, impregnadas de certo determinismo, de Tuahir, um velho dessitiado. As experiências negativas vivenciadas pelos personagens sonâmbulos são repletas de um deslumbrativo sofrimento. A dialética do livro é empregada por alguns elementos regionais, principalmente quando faz referência do uso da linguagem das tribos daquela região. O livro mostra ainda o paralelismo equivalente entre o mundo de Muindinga e Kindzu.
O menino tenta desafogar um cenário lúgubre causado pela guerra através das leituras dos cadernos de Kindzu, achado dentro de seu esconderijo, um machimbombo. Ler já não é apenas um passatempo para Muindinga, torna-se um ato de contemplação, bem como ouvir as estórias contadas por Tuahir. As lembranças de Muindinga foram subtraídas de si, não deixando poeira de esperança para suas recordações.
Mia Couto costura os retalhos de esquecimentos e lembranças mal contadas através dos relatos às vezes duvidosos e floreados de Tuahir. Kindzu, um homem, uma sobra sem voz, que é gente assomada às estórias fantasiosas de seu pai, homem feito de sonhos, que dormia antes mesmo de acabar as fábulas. Kindzu também vivenciou uma guerra, viu a divisão de sua família, a guerra os levou para longe de seus sonhos.
O cenário de Terra Sonâmbula é congênere dos personagens. Os elementos que permeiam a construção de personalidade dos personagens matizam o pano narrativo do livro e alicerçam o estilo da escrita adota pelo autor. Ao escolher como abrigo físico um machimbombo abandonado, observa-se a paridade de objeto, pois, achado também foi o caderno de Kindzu. A perda de identidade, subentende-se memória, de Muindinga, arremete à compreensão de uma perda de identitária numa escala macro, associando o individual com o todo; ora, temos um pano de fundo rodeado por conflitos, e esses mesmos conflitos residem em Muindinga e Kindzu, apontando a semelhança entre espaço e objeto. Ao observar o modo como às palavras são empregadas no livro depara-se com a escrita peculiar de Mia Couto ao imergir sentimentos, pois é isso que os personagens, os cenários e a linguagem nos repassam, uma imersão em sentimentos de expiação.
As estórias criam um canal que flutua entre realidade e fantasia, sendo impossível dissociar quem vive a história de quem. O sofrimento através do experimento é a matéria prima do romance. Porém vive-se um sofrimento encantador que desmancha um cenário devastado para criar um fundo de falsas sensações. Terra Sonâmbula é repleta de um sono que vive próximo de um despertar, quer sejam os personagens ou mesmo a estória.





















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